Ele percebe um assento vazio no fundo do ônibus e apressa os passos dissimuladamente para que a atenção de outros não seja atraída para a sua ansiosa trajetória. Não se trata de um lugar necessariamente invejável, embutido entre uma senhora robusta que revira incansavelmente uma bolsa igualmente robusta e um adolescente que parece sugado pela melodia repetitiva que escapa dos fones de ouvido. Um pequeno encaixe em um móvel muito mais populoso do que qualquer habitante dessa cidade poderia desejar. Apenas a alguns passos do objeto momentâneo do seu desejo, seus futuros vizinhos percebem sua aproximação e ele é recebido por expressões marcadas por uma indisfarçável insatisfação. Menos espaço para as pernas. Menos espaço para a bolsa. Mais calor humano do que o desejável. Ele despeja sobre o assento um cansaço que na verdade não sente. Ainda assim, ele suspira. Seu suspiro é motivado por um sentimento de vitória e realização por estar agora incluído na casta renovável daquelas poucas dezenas que encontraram um lugar ao sol. Uma vez formado o trio de viajantes siameses ligados pelos ombros, pernas e braços, o olhar busca refúgio dos olhares alheios. A sensação de estar acuado é inevitável. O sentimento de invasão da privacidade pelo coletivo no coletivo é indisfarçável. Ele sente uma necessidade constante de sustentar uma identidade pública da qual não sabe praticamente nada. Quem consegue recriar a imagem de si mesmo a partir do olhar do outro? O inferno não são os outros, mas estar em meio a outros. Cada um com seu próprio inferno. Ele pensa que talvez essa seja a causa da compulsão de muitos em permanecer o mais próximo possível da porta de saída. O emparedamento humano daquele acesso libertário ao mundo externo quase inviabiliza a sua função. Todos querem alcançar a liberdade antes de todos. E essa insensibilidade egoísta e cotidiana chega a aproximar as pessoas que querem ter diante de si uma fuga do coletivo. Paradoxo em constante movimento. Ele tenta perder o olhar nas cores sobre o fundo cinza que se sobrepõem na moldura da janela. Mas há sempre um ser humano no caminho e a sua contemplação assume contornos enigmáticos na cabeça daquele que sente seus olhos. Desconforto? Orgulho? Curiosidade? Ele também é um observador e, como tal, causa impacto nos outros com o seu silêncio. Ele também é um ator nessa encenação mal ensaiada, atuando como vigia de si mesmo e de todos ao seu redor. Com o tempo e a experiência, muitos desenvolvem subterfúgios para escapar da esmagadora consciência de não estar sozinho. Um bom livro. Um bom cochilo. A abstração do mundo e de si mesmo nos sonhos da ficção ou do sono. Outros encontram no diálogo uma saída de emergência para as pressões do espaço compartilhado. A amizade não é um requisito indispensável. Um colega de trabalho, um vizinho, um aparelho celular ou mesmo um estranho são recipientes possíveis para a ansiedade enlatada pela linguagem e revestida pela banalidade do dia a dia. Mas, ao fazer isso, essas personagens se expõe ao silêncio invejoso daqueles que estão reduzidos ao monólogo interior. Ele pensa que talvez por isso as palavras sejam tão altas e os gestos tão exagerados. Para abafar os pensamentos e bloquear os olhares da platéia. Eventualmente, alguém, alguns corpos adiante, desafia retoricamente o silêncio: “Mas, precisa falar tão alto?” E, nesse momento, muitos se sentem um pouco felizes por não serem o alvo dessa inócua reprovação. Muitos se sentem vingados pela repreensão da audácia de alguns que se recusam a compartilhar a inibição e o constrangimento da maioria. Ele considera que a ética no coletivo é diferente do que pregam os teóricos. Não se trata de fazer o bem, mas infligir um mal dentro dos limites do aceitável. Não se trata de ser educado, mas tolerado. A linguagem verbal não é necessária. Basta pressionar um pouco e as pessoas se afastam do caminho. A disputa por espaço é vencida pela veemência dos gestos e a pouca determinação dos oponentes. Ele sabe que, além da aparente neurose, seus pensamentos alcançam um nível de generalização absurdo. Mas ele sente que naquele espaço a individualidade submerge na homogeneidade momentânea da situação. Todos são passageiros. Todos se movimentam impassivelmente em direção a um destino específico enquanto a vida passa diante olhos, cristalizada pela frieza das janelas e dos olhos. Trajetória percorrida e sentida de maneira individual em pleno coletivo. Ele sorri discretamente de sua infantil liberdade poética e de sua poética provisoriamente libertadora. Afinal, um recorte da realidade ainda é realidade. Um recorte da sociedade ainda é sociedade. Ele se levanta e abre caminho em direção à porta. É o momento da parar. Sem se despedir do universo que acabara de abandonar, ele lança seus passos em uma direção quase definida. Em um caminho quase delineado. Pelo menos até a próxima parada. Pelo menos até o próximo ponto final.
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